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Vida & Arte

CINEMA

O jogo do suspense

Começa amanhã a mais completa mostra do trabalho do cineasta Alfred Hitchcock já exibida em Fortaleza. De março a julho, sempre aos sábados, às 10 da manhã, o Cine Benfica apresenta 22 longas, entre eles Rebecca - A Mulher Inesquecível, Festim Diabólico, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Psicose e Os Pássaros

Patrícia Karam
da Redação

05 Mar 2004 - 04h36min

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Um Corpo que Cai: em cartaz em junho
''Hitchcock era um visionário. Ele 'via' seus filmes antes de escrevê-los (...) Ao assistir a um filme de Hitchcock percebe-se logo que é dele, porque, assim como o grande pintor, ele cria um quadro cuja imagem, seja qual for, se torna inesquecível''. Em entrevista concedida após a morte de Alfred Hitchcock, ocorrida dia 2 maio de 1980, o cineasta e crítico francês Jean-Luc Godard reafirmou mais uma vez a admiração de sua geração pelo mestre inglês do suspense, já expressa na páginas da mítica revista francesa Cahiers du Cinéma, que na década de 1950 foi de encontro à opinião corrente entre a crítica americana e o restante da Europa. Naquela época, Hitchcock dividia-se entre o cinema e televisão, alcançando uma popularidade que desagradou os críticos, na opinião do contemporâneo de Godard, François Truffaut. Esse, aliás, fez uma longa entrevista com o mestre, na qual a obra de Hitchcock foi dissecada ao longo de 500 perguntas - a conversa foi transformada no livro Hitchcock/Truffaut (publicada no País pela editora Brasiliense).

Hoje, a polêmica arrefeceu e a genialidade de Hitchcock é reconhecida por todos. Não que as críticas implacáveis em certo período de sua carreira o incomodassem. Certa vez, ao ser indagado se tinha lido um artigo que arrasava um filme seu, Hitchcock respondeu: ''Li, sim. Fui chorando depositar o cheque no banco''. Agora, ao invés de discutir se Hitchcock tinha ou não talento, os críticos se debruçam sobre sua obra para dissecá-la - só nos Estados Unidos, há mais de 300 livros sobre o cineasta. Afinal, o inglês pode ser definido como o virtuose que dominava todas as etapas técnicas da feitura de um filme, mas, ao mesmo tempo, sustentava que essa técnica jamais poderia se impor à história, apenas evidenciá-la.

O resultado é uma coleção de clássicos que o coloca lado-a-lado de outros monstros sagrados da cinematografia mundial, referências até hoje quando se fala do cinema enquanto arte, a exemplo de Charles Chaplin, Orson Welles, o próprio Truffaut, F. W. Murnau, Federico Fellini, Serguei Eisenstein, Billy Wilder, Stanley Kubrick e Glauber Rocha. Para quem quer rever ou se aprofundar na obra de Hitchcock, o Cine Benfica inicia amanhã uma mostra com 22 títulos do homem que criou Rebecca - A Mulher Inesquecível, Festim Diabólico, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai, Psicose e Os Pássaros - só para citar alguns dos títulos presentes no festival, que acontece todos os sábados, às dez da manhã, de março a julho. Os longas serão exibidos em DVD e película e a mostra tem como um atrativo a mais o preço: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia).


Nascido em um 13 de agosto, no ano de 1899, em Londres, Alfred Hitchcock ganhou destaque inicial na terra natal. Sua fase inglesa vai de 1922 a 1939 e chamou a atenção de Hollywood para onde ele foi em 1940 - a mostra do Benfica traz o primeiro título da fase americana, Rebecca - A Mulher Inesquecível. O longa ganhou o Oscar de melhor filme, no entanto quem recebe o prêmio nessa categoria é o produtor (no caso de Rebecca, o produtor foi David O. Selznick). Em toda carreira - seu último longa para cinema é Trama Diabólica (1976) -, Hitchcock nunca ganhou um Oscar. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tentou reparar o erro histórico com um prêmio honorário em 1979.

Mas a chancela do Oscar é desnecessária para uma filmografia responsável por momentos estudados e copiados não só no cinema, mas também na televisão e publicidade. O que dizer do esfaqueamento no chuveiro da personagem de Janet Leigh em Psicose? E o calafrio que percorre a espinha quando inúmeros corvos levantam vôo ao mesmo tempo em Os Pássaros? James Stewart bisbilhotando os vizinhos em Janela Indiscreta também entra nessa lista, assim como Festim Diabólico e sua ilusão de um plano contínuo por todo o filme. Um capítulo a parte na obra de Hitchcock diz respeito à presença feminina, em especial as louras. Entre elas. Grace Kelly, Kim Novak (assumindo a dubiedade entre a loura e a morena em Um Corpo que Cai), Tippi Hendren e Ingrid Bergman. Para o inglês, uma mulher tem que reunir elegância, graça, paixão, sensualidade e caráter (esse último, para o bem ou para o mal). A receita infalível para um gênio do cinema.

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